Posso não gostar da sua opinião sobre um determinado filme, posso não gostar do jeito que você fala, posso não gostar de como o outro se veste. Cada um é de um jeito, tem uma opinião e um modo de ver e fazer as coisas, que variam de acordo com a personalidade, com a criação, com a cultura e com as referências e vivências individuais. Mas para alguns temas o buraco é mais embaixo. Mentira, inveja, preconceito, intolerância, fanatismo, traição… São coisas que vão além de gosto pessoal ou opinião, envolve valores e afeta a vida de todos ao redor.

No papo de hoje de #SemFiltro falamos do que não gostamos mesmo, daquilo que afeta nossos valores e a vida em sociedade. Cada um dos amigos trouxe sua visão do que mais os incomoda – e aproveitamos para complementar com alguns pensadores que já levantaram os temas ao longo da história.

Julgamento
A jornalista Fabiana Bruno começou contando que não tolera julgamento: nem julgar, nem ser julgada.

“Não julgueis, antes de julgar a si mesmo. Não julgueis, se você não está pronto para ser julgado” – Bob Marley.

“Nossos sentidos não nos enganam. O que nos engana é o nosso julgamento” – Johann Goethe

Injustiça
Já a psicanalista Diana Dahre fala em injustiça. Sabe aquela coisa de falarem uma coisa que você não fez? Então, essa sensação de ser injustiçada tira a Diana do sério. “Falta de educação também, mas o pior de todos nessa lista é ser injustiçado”, comenta. E o Torrego concorda: “Não gosto de ser injustiçado. não é que eu sempre tenha razão ou seja sempre o que está acontecendo, mas sei a minha verdade, sei o que faço. Às vezes gostaria de fazer tudo o que as pessoas falam que eu faço, gostaria de ter tempo extra para fazer o que as pessoas falam que eu faço.

“Se sofrer uma injustiça, console-se, a verdadeira infelicidade é cometê-la”, Demócrito

“Fique em silêncio… não conteste… não fale nada sobre as injustiças, não se exponha, não reaja e talvez você viva em paz. Afinal, não está incomodando ninguém. Talvez apenas não consiga dormir por causa dos gritos que vêm de dentro da sua alma clamando por justiça”, Elis Regina.

Pouca educação e muita razão
A Keli Savieto vai direto ao ponto. “Tenho pavor de gente mal educada, que fura fila, que para em lugar de deficiente…”. Mas não deixa de lado outros pontos que não aceita: gente interesseira e gananciosa, além daqueles que têm sempre razão.

“Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito. É uma tentativa de colonização do outro”, Saramago

“A razão é um sol impiedoso; ela ilumina, mas cega”, Romain Rolland

Empatia
Mas é o Torrego que fecha com chave de ouro esse papo, trazendo um tema tão atual e quente nas conversas, nas convivências, no mundo: empatia.

“Falta de empatia é muito grave. Nunca sabemos a verdade inteira, não assistimos a cena completa. Então tomamos a parte assistimos, julgamos, e não nos colocamos no lugar da outra pessoa para pensar ‘o que eu faria nessa situação?’. Simplesmente julga. A falta de empatia é cultural, educação, e vai além do sentido. Quando você não é empático, não tem capacidade de fazer amigos. E se não é empático com alguém, não é nem com você mesmo”.

Mas, afinal, o que é empatia? É se colocar no lugar do outro, é “calçar os sapatos do outro”, como diz a expressão em inglês. O poeta João Doederlein define de maneira precisa e lindíssima.

“Não é sentir pelo outro, mas sentir com o outro. Quando a gente lê o roteiro de outra vida. É ser ator em outro palco. ‘É compreender. É não dizer “eu sei como você se sente”. É quando a gente não diminui a dor do outro. É descer até o fundo do poço e fazer companhia pra quem precisa. Não é ser herói, é ser amigo.
É saber abraçar a alma.”.

O ex-presidente americano também já colocou os holofotes sobre o tema:
“The biggest deficit that we have in our society and in the world right now is an empathy deficit. We are in great need of people being able to stand in somebody else’s shoes and see the world through their eyes”.

O tema é alvo de muitos estudos, como podemos imaginar, e já virou livro, Empathy – A Handbook for Revolution. O filósofo australiano Roman Krznaric fala, dentre outras coisas, sobre o poder revolucionário que a empataria pode trazer ao mundo, como revelou nesse trecho de uma entrevista dada na época do lançamento.

“Se você olhar a história, a empatia tem sido essencial para a criação de mudanças sociais. No século 18, os ativistas contra a escravidão na Europa pegaram pessoas da população para tentar imaginar o que poderia ser um escravo que trabalhava até a morte em uma plantação de açúcar no Caribe. Em outras palavras, eles tentaram fazer as pessoas terem empatia com os escravos. Isso levou a um movimento social de massa e à abolição da escravatura na região. Precisamos reconhecer que a empatia pode criar uma revolução – não daquelas à moda antiga, baseadas em novas leis ou instituições, mas algo mais fundamental: a revolução das relações humanas. Necessitamos hoje, com urgência. Basta pensar o quanto estamos entrando na pele das gerações futuras, pela queima de combustíveis fósseis e destruindo nosso único lar planetário. Precisamos dar o salto imaginativo empático e nos colocar nos sapatos das gerações futuras como forma de nos motivar a agir sobre os seus comportamentos”.

E para dar a devida importância ao assunto, foi, inclusive, criado um museu com esse foco. O “Empathy Museum” fica em Londres. O espaço é dedicado a experiências que desenvolvem nossa capacidade de olhar através dos olhos do outro. Ou seja, empatia. São conversas, palestras, instalações e vivências variadas que expõem e desenvolvem o tema. Ele já passou pelo Brasil, Estados Unidos, Austrália e Sibéria. Para saber mais, basta acessar a página oficial: http://empathymuseum.com

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