Para começar essa conversa, procuramos algumas palavras no dicionário. Incrível está definida como “que tem caráter extraordinário; fabuloso, fantástico; que é fora do comum; excêntrico, extravagante. Já a palavra narciso significa “indivíduo que adora a própria imagem; homem que se considera grandioso pelas conquistas realizadas; personagem lendária da mitologia grega que se apaixona por sua própria imagem refletida nas águas de uma fonte, onde fica a contemplar-se até morrer, transformando-se em uma flor”. Arrogância aparece como “orgulho que se manifesta por atitude de prepotência ou desprezo com relação aos outros; altivez, cachaço, jactância, presunção, soberba; falta de respeito; liberdade desrespeitosa; atrevimento, insolência, ousadia”.

O que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo, principalmente nos dias de hoje. E esse foi o assunto da conversa entre o Torrego e a psicanalista Diana Dahre nessa edição de #EInsights.

A Diana conta que a pessoa se considerar ou se sentir incrível tem dois lados. Pode, ao mesmo tempo, demonstrar uma atitude otimista diante da vida, mas também pode ser uma arrogância e se achar superior aos outros.

“Temos duas opções: eu sou incrível e o resto do mundo é nada, portanto mereço tratamento especial por isso; ou lado eu não sou nada, por isso mereço tratamento especial, é o famoso vitima’, explica. Nos dois casos, envolve essa necessidade de receber uma atenção especial por parte do outro, e isso é um pouco do efeito narcisista sobre nós. O cuidado aqui é saber como conduzir isso na sua vida e o limite entre a autoestima saudável e a arrogância.

Uma forma de expressarmos esse narcisismo e a necessidade de nos sentirmos incríveis hoje em dia são as redes sociais. Se olharmos para nós mesmos, podemos detectar essa necessidade de sermos vistos sempre bem, lindos e admirados em fotos e selfies postadas diariamente em nossos perfis com o intuito de nos mostrarmos pro outro e esperar likes e comentários como reconhecimento do “quão incrível somos”. Se olharmos para os outros, acompanhamos o cotidiano de celebridades e pessoas que às vezes nem conhecemos apenas pelo prazer de idealizar a vida deles. O problema é que acabamos fazendo comparações e o resultado é frustração por não termos essa vida supostamente perfeita.

As perguntas que devemos nos fazer são:
somos mesmo tão especiais?
e o outro é mesmo tão incrível e melhor que eu?

Porque no fim, pode ser apenas narcisismo da nossa parte para encobrir insatisfações, frustrações e traumas.

Narcisismo

Essa palavra é muito usada e conhecida hoje em dia. Sempre associada a pessoas que só se preocupam consigo mesmas, que só olham para o próprio umbigo… Mas qual a origem dessa palavra e, principalmente, qual o real significado que carrega?

Pois o termo, tão atual, é na verdade super antigo. Vem da Mitologia Grega, mais especificamente.

Dessa vez trazemos a definição do Wikipedia: “Narciso era um rapaz plenamente dotado de beleza. Seus pais eram o deus do rio Cefiso e da ninfa Liríope. Dias antes de seu nascimento, seus pais resolveram consultar o oráculo Tirésias para saber qual seria o destino do menino. E a revelação do oráculo foi que ele teria uma longa vida, desde que nunca visse seu próprio rosto.

Narciso cresceu, e se transformou um jovem bonito de Beócia, que despertava amor tanto em homens e mulheres, mas era muito orgulhoso e tinha uma arrogância que ninguém conseguia quebrar. Até as ninfas se apaixonaram por ele, incluindo uma chamada Eco que o amava incondicionalmente, mas o rapaz a menosprezava. As moças desprezadas pediram aos deuses para vingá-las. Para dar uma lição ao rapaz frívolo, a deusa Némesis o condenou a apaixonar-se pelo seu próprio reflexo na lagoa de Eco. Encantado pela sua própria beleza, Narciso deitou-se no banco do rio e definhou, olhando-se na água e se embelezando. Depois da sua morte, Afrodite o transformou numa flor, Narciso. Até em sua morte, ele tentava ver nas águas do Estige as feições pelas quais se apaixonara.

Uma versão anterior (…) termina com Narciso cometendo suicídio. Em outra versão (…) um jovem chamado Amínias apaixonou-se por Narciso, que já havia rejeitado seus pretendentes. Narciso também rejeitou-o e deu-lhe uma espada. Amínias suicidou-se à porta de Narciso. Ele tinha rogado aos deuses para dar a Narciso uma lição por toda a dor que provocou. Narciso passou por uma poça de água e decidiu beber um pouco. Ele viu seu reflexo, tornou-se fascinado por ele e se matou porque ele não poderia ter seu objeto de desejo”.

Em comum, todas as versões têm interpretações iguais na psicologia, que encontra nessa mitologia a explicação para o comportamento da pessoa que alimenta uma paixão por si mesmo. Uma característica que, para o psicanalista Freud, todos temos, mas em diferentes graus, sendo o mais alto dele considerado uma patologia.

Nos dias de hoje, isso se traduz na necessidade de ser admirado e ser o centro das atenções, egoísmo e na falta de empatia pelo outro. O consumismo exagerado, o culto à beleza a qualquer custo, o comportamento nas redes sociais, a necessidade pela fama, o desejo pela juventude eterna são algumas das características que marcam essa personalidade.

O outro lado da moeda

Mas isso não significa que você precise se diminuir e colocar pra baixo diante dos outros e da vida. Cultivar certo ego saudável não só é benéfico, como importante para sobrevivência. Dá segurança e confiança para seguir atrás de seus sonhos, conquistar seu espaço e, claro, mostrar seu valor e se colocar no mundo.

Como tudo na vida, o segredo está no equilíbrio. Tudo bem tirar fotos suas, ter consciência de seu valor e suas qualidades, ou querer transmitir seu conhecimento e vivência para os outros. O que define o limite entre o saudável ou não é a forma como isso acontece e o real desejo por trás disso.

“Esse ser incrível que todos temos é saudavel se a gente consegue ser incrível sem ser arrogante e narcisista. Simplesmente conseguir compartilhar o fato de ser especial, compartilhar o conhecimento, generosidade, talentos, educação… A gente precisa transcender tudo o que aprender. É isso o que importa”, complementa a Diana.

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